Oportunidades e salários iguais no mercado de trabalho, divisão das tarefas domésticas e equipamentos sociais adequados, atenção à saúde, fim do assédio, da violência, do feminicídio e condições de disputar posições de destaque na política e no movimento sindical.

Construir essa realidade de plena emancipação feminina, que tem como barreira séculos de cultura patriarcal e inúmeros preconceitos sempre foi a meta da sindicalista Gilda Almeida de Souza, vice-presidente da CNTU e coordenadora geral do Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho  “Essa é uma luta que é da superestrutura, não vai se resolver no curto prazo, mas é preciso enfrentá-la”, afirma Gilda.

Como foi o seu ingresso na profissão de farmacêutica?

Na realidade, o que determinou muito essa questão, de como lidar com a luta pelos direitos, seja no trabalho, no movimento sindical e na política, na saúde, em todos os campos, e me ajudou bastante foi a formação familiar. Na minha casa, era muito presente a ideia de a mulher ser independente e ter seu espaço. Meus pais valorizavam muito isso. Então, escolher farmácia não foi muito fácil, mas estava na pauta optar por uma profissão, o que era decisivo para ser independente. Construí minha trajetória com base nisso.

E a entrada no mercado de trabalho?

O primeiro desafio foi arrumar um emprego em São Paulo. Quando me inscrevi para ser estagiária no Instituto Butantã, não foi fácil. Apesar de já ter uma concepção emancipacionista da mulher, enfrentei um campo que era de homens. Na saúde, já havia muita mulher, mas os chefes eram homens, a começar pelo diretor. A gente se dá conta de que você tem que vestir a camisa e sair lutando, ou não abre os espaços. Quando você está na área da saúde, da ciência, a sua capacidade, responsabilidade conta muito. O fato de já militar no partido me orientava. Aí, comecei a militar no movimento sindical. Quando vim morar em São Paulo, não tinha muito claro como ia militar, mas já sabia que iria ser uma lutadora do povo brasileiro, da minha categoria, dos meus pares. Entrei no movimento dos servidores públicos.

 Houve dificuldades mesmo numa categoria em que havia muitas mulheres?

Na minha categoria por volta de 70% são mulheres. Quando entrei, já eram 50%. Eu fui a primeira presidente do sindicato dos farmacêuticos, hoje com 74 anos. E depois de alguns anos batalhando muito, dizendo que precisamos formar as mulheres, que elas precisam  ocupar os espaços e disputar o poder, hoje quem preside o sindicato novamente, é uma mulher.  Temos que preencher os espaços, no sindicato, no trabalho, em casa, nos cargos legislativos, executivos. Temos questões fundamentais a serem tratadas, a violência, o assédio,  o feminicídio das mulheres que de acordo com as pesquisas, morre uma a cada 7 horas, em média.

Por que na atualidade ainda existe essa barreira?

Uma das questões é a cultural. As mulheres sempre foram colocadas em lugares que não fossem de destaque ou de mando. Isso já mudou bastante, mas ainda existe. A mulher tem que fazer a disputa no sindicato para ser a presidente, é preciso travar a disputa, ainda que fraterna, com os homens. Além disso, a mulher na divisão social do trabalho, quase sempre assume as questões da maternidade e a casa. Então, tem mais dificuldade. E o poder público não compreende que a mulher precisa de equipamentos para poder exercer plenamente o seu trabalho e a sua cidadania.

Na política, o problema também persiste?

Comemoramos em 24 de fevereiro os 88 anos do voto feminino no Brasil, mas ainda temos poucas mulheres na política. Posso citar um dado da última eleição (2018) que demonstra está questão, a bancada feminina até então, composta por 53 parlamentares, em 2018, cresceu para 77, representando 15% das vagas 513 vagas da Câmara dos Deputados. Embora distante da paridade num país que mais de 51% da população são mulheres, o percentual é o maior já alcançado por mulheres na casa.   E mais um dado, dificilmente essa inserção se dá devido a uma trajetória nos movimentos sociais, mas sim porque o marido ou o pai introduzem a mulher na política. É importante de qualquer forma, mas temos que valorizar as que são oriundas dos movimentos, porque fazem uma grande diferença.

 As cotas de candidaturas femininas nos partidos não têm funcionado?

Elas existem pró-forma, lança-se a mulher, mas o investimento na candidatura é muito pequeno. A cota por si só não resolve, tem que ser qualificada. Por exemplo, as centrais sindicais têm cota de dirigentes mulheres, mas dificilmente uma é presidente, tesoureira ou secretária-geral.

Nesse caso as secretarias ou departamentos de mulher têm a sua função, não?

É importante, tem que ter, porque há especificidades que precisam ser tratadas e que muitas vezes o homem não compreende por mais arejado que seja. Mas, ainda não são estruturas de poder. Isso é na presidência, na tesouraria, na secretaria geral e hoje também na área de imprensa. Dificilmente você encontra mulheres nessas posições.

Devido à pandemia do COVID19, corremos o risco de não ter eleição em 2020, para à Prefeitura e a Câmara de Vereadores, na sua opinião qual é o impacto da não realização das eleições para o Brasil?

Acredito que a situação em que nos encontramos é bastante delicada. Penso que, não podemos aceitar a ideia de postergar por período indeterminado os mandatos vigentes e retirar do conjunto da população a possibilidade de alterar esse quadro em que vivemos. Com a democracia brasileira, já tão combalida e debilitada, não podemos nos dar ao luxo de não realizarmos as eleições!

Por tudo que vivemos nesse último período, é importante destacar que a realização de eleições de maneira ordinária não é uma garantia para o pleno funcionamento de um regime democrático, mas sem elas a situação do povo de uma maneira geral se torna ainda mais difícil. Governantes sem lastro eleitoral não levam em consideração os anseios populares. Não existe democracia sem eleições. No entanto, hoje não temos condições de ter eleição em função do isolamento social imposto pela pandemia. Existe uma grande dúvida sobre em que termos seria travada essa disputa eleitoral, sobretudo quanto ao uso das redes sociais e de outras ferramentas digitais. O histórico recente nos mostrou que a extrema direita possui recursos materiais suficientes para, a partir dessas novíssimas ferramentas manipular a opinião pública. Tudo isso foi realizado sem nenhuma ou com muito pouca regulamentação. Uma eleição sob essas circunstâncias e ainda sem a possibilidade de mobilização popular em virtude desse isolamento é bastante temerária. Nesse sentido, acho que devemos realizá-las assim que as condições mínimas para tal estiverem asseguradas e com ampla participação popular.


Gilda Almeida de Souza é farmacêutica, coordenadora geral do CES - Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho e vice - presidente da 

CNTU - Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Regulamentados