No primeiro dia em que comecei dar aulas de Sociologia no curso de Direito da PUC, ao entrar na sala dos professores, encontrei um professor  que me questionou: Quem é o senhor? A pergunta tinha sentido, pois ele, jurista, de terno e gravata, vê entrar um professor mais jovem, sem terno nem gravata na sala dos professores de Direito. Eu respondia, sou professor de Sociologia. Ele então questionava novamente: O que é Sociologia?  E eu respondia ironicamente: A Sociologia é a ciência obvio.

Muitas vezes a cena se repetiu. Ambos riamos ironicamente. Eu, de suas perguntas, ele, de minhas respostas.

A minha resposta, na realidade, era uma lembrança da época da Ditadura Militar. Nelson Rodrigues, o grande dramaturgo brasileiro, era simpático ao regime militar e escrevia suas crônicas num jornal carioca, sempre criticando  os “padres de passeatas” e os “sociólogos subversivos”. Definia a sociologia como a  “ciência do obvio”. E acrescentava: do “óbvio ululante”.

Na época, 1968, eu estava no Rio, como assessor da CNBB, lia suas crônicas  e ficava indignado, pois eu era padre, participava das passeatas e era sociólogo que criticava a ordem vigente.

Na realidade, a brincadeira parece ter sentido. Afinal, para que estudar sociologia?  Por que estudar a sociedade em que vivemos? Não basta vivê-la? É possível conhecer a sociedade cientificamente? A Sociologia serve para quê?

O grande sociólogo Anthony Giddens já dizia que a  Sociologia trata do que todo mundo já sabe em uma linguagem que ninguém entende. Já  Pierre Bourdieu afirmava que a função da Sociologia, como a de todas as ciências, é revelar o que está escondido

As perguntas acima são feitas por muitos alunos que entram na Universidade, pois a Sociologia junto com a Filosofia são consideradas perfumarias. Ao ingressar na Universidade, muitos jovens esperam encontrar um conjunto de disciplinas voltado inteiramente para o estudo técnico da área que escolheram.  São imediatistas, pois acham que tendo ingressado numa determinada área,  querem aprender fórmulas e receitas prontas.

Na época em que Nelson Rodrigues criticava a sociologia, não só eu fiquei indignado.  Darcy Ribeiro, um dos maiores cientistas sociais brasileiros, também indignado, escreveu um texto, que hoje é um clássico nas ciências sociais: “Sobre o Obvio”. Diz ele que o negócio dos cientistas é mesmo lidar com o obvio. Aparentemente, diz ele, Deus é também muito brincalhão.  Faz as coisas de forma tão recôndita e disfarçada que precisa desta categoria de gente - os cientistas - para ir tirando os véus, desvendando, a fim de revelar a obviedade do óbvio. O ruim deste procedimento é que parece um jogo sem fim. De fato, só conseguimos desmascarar uma obviedade para descobrir outras, mais óbvias ainda.

Darci Ribeiro apresentava algumas obviedades . É óbvio, por exemplo, que todo dia o sol nasce, se levanta, dá sua volta pelo céu, e se põe. Sabemos hoje muito bem que isto não é verdade. Mas foi preciso muita astúcia e gana, diz ele,  para mostrar que a aurora e o crepúsculo são brincadeiras de Deus. Não é assim? Gerações de sábios passaram por sacrifícios, recordados por todos, porque disseram que Deus estava nos enganando com aquele espetáculo diário. Demonstrar que a coisa não era como parecia, além de muito difícil, foi penoso, todos sabemos.

Outra obviedade, tão óbvia quanto esta, ou mais óbvia ainda, é que os pobres dependem dos ricos. Sem os ricos o que é que seria dos pobres? Quem é que poderia fazer uma caridade?  Os ricos é que dão empregos para os pobres. Seria impossível arranjar qualquer ajuda. Sem rico o mundo estaria incompleto, os pobres estariam perdidos. Mas veio um barbudo dizendo que não, e atrapalhou tudo. Tirou aquela obviedade e colocou outra oposta no lugar. Aliás, uma obviedade subversiva.

Há muitas outras obviedades que poderíamos citar aqui. Como por exemplo, de que nós, brasileiros, somos um povo de segunda classe, um povo inferior, vagabundo, de que o brasileiro é um povo pacífico, de que há harmonia entre as classes sociais, de que os movimentos sociais são criminosos, de que as mulheres são inferiores aos homens, os negros inferiores aos brancos.

Estas são as obviedades com que vivemos há muito tempo. Mas as ciências sociais, a partir de suas pesquisas, começaram a mostrar que nenhuma se mantinha de pé. Segundo Darcy Ribeiro, demos uma virada prodigiosa na roleta da ciência. Todas aquelas obviedades caíram por terra. Eram como a brincadeira diária do sol que todo dia faz de conta que nasce e se põe.

 “As coisas não são como parecem ser” é o que eu sempre dizia nas minhas primeiras aulas. A Sociologia põe em dúvida as certezas  que temos, questiona nossas opiniões mais arraigadas, modifica nossa percepção sobre o que vivemos em nossa rotina, contribui para alterar a maneira de vermos nossa própria vida e o mundo que nos  cerca. Ela é essencialmente crítica.

A realidade social sempre nos  é apresentada revestida de uma roupagem, de tal modo que nunca a vejo como ela é, mas sim por meio de sua roupagem. Quem colocou esta roupagem?  Quem tem poder de colocar e tem interesse de que ela seja vista assim. Interesse e poder. Mas isto não é tão obvio.

Como consequência, em muitos cursos,  há uma inclinação bastante forte para identificar o conhecimento específico como um tipo de tecnologia destinado apenas a atender às necessidades do profissional no desempenho imediato de suas funções. Não percebem o conhecimento como instrumento de mudança social, não o compreendem como um saber que também serve à luta e transformação social exigida pelo mundo em que vivemos. Não percebem que  a realidade social não poder ser fragmentada, mas deve ser vista na sua totalidade. Não é possível isolá-la só num aspecto. A realidade social é política, sociológica, econômica, cultural, histórica e ética.

E como vimos, isto não é tão óbvio. Muito menos ululante!

Quem quiser ler o texto de Darcy Ribeiro, na integra, acesse: http://www.biolinguagem.com/ling_cog_cult/ribeiro_1986_sobreoobvio.pdf

 

Por Arnaldo Lemos Filho

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