Vivemos um tempo de anomalias severas. Após atravessarmos o abismo do negacionismo, a economia parece ensaiar passos adiante, mas as relações humanas estagnaram em uma falência ética profunda. O "bom senso", essa bússola mínima de convivência, parece ter sido abortado da vida pública. No epicentro dessa crise, surge uma segurança pública que, em vez de assegurar a vida, reafirma o poder pela bala.

De acordo com dados do Governo de São Paulo, o estado vive uma corrida armamentista interna. Até o primeiro semestre de 2025, 9.100 novos agentes foram incorporados às forças de segurança. A meta é audaciosa: 23.400 novos policiais até o fim do mandato. Mas a pergunta que ecoa nas vielas da Cidade Tiradentes e de Paraisópolis não é sobre o quantitativo, mas sobre o qualitativo: quem nos protege da mão que deveria nos proteger?

O Marcador de Raça, Gênero e Classe

A violência institucional em São Paulo não é cega. Ela tem alvo e território. Cidade Tiradentes, o maior complexo habitacional da América Latina, tem um perfil definido: é feminino, é preto, é pobre. É ali que a "armadura do poder" se choca com a vulnerabilidade.

Recentemente, assistimos ao descompasso de uma abordagem que culminou na morte de uma mulher por uma estagiária da corporação — uma jovem de 21 anos que, entre outras 5.000 em formação, parece não ter suportado a pressão de uma estrutura que prioriza o bélico em detrimento do humano.

O caso de Thawanna, morta em abril de 2026, é o símbolo de um recorde trágico: o primeiro trimestre deste ano registrou o maior número de mulheres mortas pela polícia em São Paulo desde 2013. Embora os homens sejam as vítimas majoritárias da letalidade policial (98%), a participação feminina dobrou. E o recorte é implacável: 83% das mulheres mortas por policiais são negras.

A Política do "Sinal Verde"

Não se mata apenas com o gatilho; mata-se também com o discurso. Embora não exista um decreto oficial autorizando a barbárie, frases como o "Tô nem aí" do governador Tarcísio de Freitas, proferida em março de 2024 diante de denúncias de abusos na Operação Verão, funcionam como um cheque assinado em branco. O desestímulo às câmeras corporais e a

retórica agressiva criaram, na ponta do policiamento, a sensação de que a "porteira está liberada".

O próprio governo, em um raro momento de reconhecimento em dezembro de 2024, admitiu que o "discurso tem peso" e que erros na fala trazem consequências letais. Mas para a mãe de cinco crianças agora órfãs na periferia, o reconhecimento tardio não devolve o sopro da vida.

Do Tanque de Pedra às Redes Sociais

Minha indignação não nasce apenas dos relatórios técnicos, mas da memória. Lembro das mulheres do cortiço onde morei, lavando roupas em tanques de pedra e compartilhando dores que o Estado nunca quis ouvir. Vi de perto as contrações da vizinha — falecida — que teve um aborto provocado durante o periodo que era de ditadura. Por ser livre e pobre, também foi vítima da violência policial que chegava a cavalo; foi puxada pelos cabelos simplesmente por estar na rua em horário incompatível com as regras da época. Pobre nunca fazia Boletim.

Mas por que essa forma? “Porque sim.” À época, era de repressão total: não havia internet, celulares ou fotografias nesses espaços. O silêncio mantinha todo mundo em seu quadrado e vivo.

De lá pra cá, o que mudou? A cavalaria montada continua, em menor volume, mas em todos os lugares a polícia chega de viatura. O método, a repressão sobre o corpo feminino, permanece assustadoramente similar. A diferença é que hoje temos a comunicação na palma da mão.

Em Paraisópolis, nas redes, vimos a rasteira e a bota chutando a jovem Luara no “Massacre de Paraisópolis”, na viela do Louro, durante uma operação no baile funk às 3h40 da manhã. Muitos registros foram feitos de forma anônima, por celulares, muitas vezes a partir de frestas de janelas — afinal, cada um no seu quadrado para sobreviver.

O pesquisador à época mencionou: “A maneira pela qual a operação policial ocorreu mostra que houve uma intencionalidade e racionalidade no processo de cerco e de encurralamento [...] Não foi um efeito colateral de uma operação de dispersão”, afirma o pesquisador.

Sobre o

local, o mesmo pesquisador registra: “Existe uma relação direta entre a morte por asfixia — como diz o laudo, por asfixia mecânica — e um processo de encurralamento. Então, nesse sentido, se não houvesse um processo de cercamento e de encurralamento da multidão, seguramente não teriam ocorrido essas mortes por asfixia.”

(Paulo Tavares, coordenador da Agência Autônoma.)

Na televisão, vimos o joelho no pescoço de uma comerciante em seu próprio bar, uma mulher negra de 52 anos, moradora de Parelheiros, na zona sul da capital paulista, que teve o pescoço pisado por um policial militar em maio de 2020.

Os tanques de pedra ainda existem nas comunidades, cortiços e favelas. Quando há água, elas continuam falando das violências que batem todos os dias à porta, também quando seus filhos e filhas saem de casa,, em sua grande maioria, negros e negras, da insegurança do seu retorno em tranquilidade.

O Horizonte da Dignidade

O que temos ao fundo é uma estrutura de subordinação que espera que os "paupérrimos" aceitem a herança das contas a pagar e do medo. Mas a essência da nossa dignidade não aceita esse silêncio.

A segurança pública que defendemos precisa passar por uma revisão urgente de seus protocolos de gênero e raça. Não podemos aceitar que o "treinamento" seja apenas um verniz para uma força que investe com metralhadoras contra corpos convalescentes no asfalto frio. No fim das contas, nem todos somos iguais na visão discriminatória do Estado, mas todos queremos o básico: sobreviver com dignidade e a esperança de que o amanhã não seja interrompido por um disparo oficial.

A Avenida Paulista e a Cobrança que Virou Cárcere

Como se não bastasse o luto na Zona Leste, o outro lado da cidade, o centro econômico pulsante do Brasil, serviu de palco para mais um ato de desumanidade. Na Avenida Paulista, símbolo da riqueza paulistana, a força bruta encontrou uma diarista que buscava nada além de um direito sagrado: receber pelo seu dia de trabalho.

O que deveria ser uma cobrança legítima por serviços prestados transformou-se em uma abordagem violenta e desproporcional. Diante dos olhos de sua filha, a mãe trabalhadora foi detida pela Polícia Militar, em um constrangimento público que revela a face mais perversa da nossa segurança: a criminalização da sobrevivência. Mais uma vez rasteira, força desproporcional.

Essa é a São Paulo de 2026, uma metrópole marcada por contradições profundas e feridas abertas, que paradoxalmente escolheu um "candango carioca" para gerir seus destinos. Sob essa gestão, o que vemos é o endurecimento do aço e o encurtamento do diálogo.

Agora é com paulistas e paulistanos, vai continuar apostando neste tipo de governabilidade do medo e da repressão? Desde quando isso mudou de fato o seus dias? Não mudou né só inge só ficou o abismo criados por poucos para controlar muitos. Sobre as mulheres continuam sendo à maioria e eles precisam nos respeitar, sendo à condição de classe que for que estejamos inseridas.

Por Flávia de Jesus Costa

 

Referências Bibliográficas:

BRASIL. Ministério das Mulheres. Ligue 180: Relatório Anual de Atendimento às Mulheres em Situação de Violência. Brasília, DF: Ministério das Mulheres, 2025. Disponível em: [site do ministério]. Acesso em: 12 abr. 2026.

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (FBSP). Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. São Paulo: FBSP, 2025. Disponível em: https://forumseguranca.org.br. Acesso em: 12 abr. 2026.

G1; FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA; NÚCLEO DE ESTUDOS DA VIOLÊNCIA DA USP. Monitor da Violência: Letalidade policial e índices de criminalidade. [S. l.], 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/. Acesso em: 12 abr. 2026.

PONTE JORNALISMO. Violência policial é o marcador de raça e gênero nas periferias de São Paulo. São Paulo, 2026. Disponível em: https://ponte.org. Acesso em: 12 abr. 2026.

REDE DE OBSERVATÓRIOS DA SEGURANÇA. A cor da violência policial: a bala não erra o alvo. [S. l.], 2025. Disponível em: https://redeseuguranca.com.br. Acesso em: 12 abr. 2026.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Segurança Pública. Estatísticas Trimestrais de Criminalidade e Produtividade Policial. São Paulo: SSP-SP, 2026. Disponível em: https://www.ssp.sp.gov.br. Acesso em: 12 abr. 2026.

TARCÍSIO admite que 'discurso tem peso' e reconhece reflexos negativos em falas anteriores sobre segurança. Agência Brasil, Brasília, DF, 15 dez. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: 12 abr. 2026.

SÃO PAULO sob tensão: abordagem policial contra diarista na Avenida Paulista gera onda de protestos. Folha de S. Paulo, São Paulo, 10 de abril 2026. Cotidiano. Disponível em:https://www1.folha.uol.com.br . Acesso em: 12 abr. 2026.

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